terça-feira, 25 de novembro de 2008

Em pleno século XXI


Há alguns dias, um fato me deixou boquiaberta. Trata-se do episódio racista contra o cantor Dudu Nobre e sua esposa, a dançarina Adriana Bombom, durante um vôo realizado pela empresa American Airlines. Resolvi escrever sobre o assunto depois de assistir a uma entrevista do artista, no último Domingo, para o Fantástico. Não sinto pena de Dudu Nobre, eu o admiro por não "deixar pra lá". Não consigo conceber, em pleno século XXI, um ser humano tratar outro dessa maneira por causa da cor da pele, ainda mais se tratando de pessoas que deveriam saber lidar com o público, são pagas para servir bem os passageiros, independente de sua classe social ou raça.
O que me entristece ainda mais é saber que diariamente, no mundo inteiro, pessoas são discriminadas, mal tratadas e marginalizadas por um motivo inadmissível como este, e nada acontece. Eu, mais do que ninguém, sei o quanto o tema racial está batido, mas parece que por mais que se fale sobre isso, menos entre na cabeça das pessoas a seriedade da questão, parece que nem existe, que acontece em outro planeta. No entanto, a discriminação racial está no nosso cotidiano, nas nossas expressões e brincadeiras.
Lembro-me de ter lido, ou visto em algum programa, uma entrevista de Chico Buarque sobre o assunto. Ele falava de um fato ocorrido com o seu genro, o percussionista Carlinhos Brown, e sua filha Helena Buarque. Minha memória é um pouco falha, mas o caso teria sido o seguinte: a família estava em um restaurante, provavelmente um lugar freqüentado por pessoas abonadas, e uma cliente teria ficado incomodada com a presença de Carlinhos Brown e de seu filho (neto de Chico), por serem negros. Não faço a menor idéia do que aconteceu depois, mas sei que o episódio aborreceu muito o ilustre compositor. Lembro de uma frase dele, acho que era assim "não existem brancos legítimos no Brasil", referindo-se ao fato de sermos um povo miscigenado.
Chico Buarque está certíssimo e é por isso mesmo que vou parar por aqui. Gente muito mais gabaritada já escreveu, pesquisou e estudou muito o assunto, intelectuais e humanistas do mundo inteiro já gastaram todo o seu "latim" tentando mostrar à humanidade a estupidez de discriminar um irmão por causa da sua cor. Finalizo com a sensação de estar dando "murro em ponta de faca", mas valeu o desabafo...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Musicalizando


Música sempre foi fundamental para mim, ela embalou vários momentos especiais. Costumava dizer, quando mais nova, que minha vida tinha uma trilha sonora. Até hoje, quando escuto uma música que ouvia em determinada fase, tenho a impressão de que voltam todos os sentimentos e sensações que envolviam aquela situação.
Já li em algum lugar, ou vi na televisão, sobre a “memória olfativa”, cheiro ou odores que nos remetem a momentos e pessoas. Pois bem, no meu caso a memória mais evidente é a “auditiva”. Sabe aquela história de “a nossa música”, profundamente cafona, mas presente “nas melhores famílias”? Carrego essa cafonice comigo por toda a vida, chega a ser inevitável, não consigo deixar de fazer essa relação entre pessoas especiais, ou momentos marcantes e uma música.
Recentemente, durante a gestação do meu filho, Francisco, mais especificamente no início da gravidez, no auge do enjôo, eu escutava muito Vinícius de Moraes, aquela fase do poeta ligada ao candomblé e a Bahia. São músicas que eu adoro (ou adorava) e queria que Francisco ouvisse desde o útero. Porém, o “feitiço virou contra o feiticeiro”, hoje só de escutar a introdução de uma dessas músicas sinto, imediatamente, um mal estar, todo aquele enjôo volta.
Outro exemplo, desta vez mais positivo, foi o dia em que beijei pela primeira vez o meu marido. O fato ocorreu durante um show de Nando Reis, ainda lembro a data, 5 de novembro de 2005, e não preciso dizer que foi inesquecível, afinal estava beijando o homem da minha vida. Apesar de não ser fã do artista, desde então passei a me senti muito bem ouvindo uma de suas músicas.
O início do namoro com Fellipe, meu marido, também foi um momento muito “musical”. Ele também tem uma ligação forte com a música, aliás, toda a sua família tem. Nesse começo de namoro, ouvíamos muito Chico Buarque. Um CD em especial me lembra esse momento, aquele com Chico e Maria Bethânia cantando juntos.
Foi sempre assim, uma música, uma sensação. Tive certa influência dos meus pais que, quando jovens, adoravam dançar e ouvir música. Meu pai, que é uma pessoa, no mínimo excêntrica, escutava os discos de Maria Bethânia nas alturas e cantava junto com ela, quase incorporando a intérprete. Já minha mãe, que é o oposto do meu pai, muito mansa e de olhar doce, sempre cantarolava baixinho e embalava minha infância, era meu rouxinol.
Cresci ouvindo música boa, o que não significa que sempre foi assim. Como a maioria dos mortais, já dei minhas escorregadas, principalmente na adolescência, quando cheguei a gostar de Ivete Sangalo, Chiclete com Banana, e até Ana Carolina. Mas foi uma fase bem curta, graças a Deus! Não discrimino ninguém que gosta deste tipo de música, ou até de coisas que eu considero muito pior, só que eu não escuto, não consigo achar bom, é um fato. E, antes que me julguem, não sou nem um pouco bitolada à MPB, por exemplo, sou até bem eclética. Adoro samba, reggae, rock, mangue beat, frevo, ciranda, chorinho, até um forrozinho pé-de-serra.
Quando tinha 10 anos de idade, participei de um encontro católico do meu bairro, era um encontro de adolescentes, muito animado e cheio de música (religiosas, claro). Fiz muitos amigos nesse encontro, a maioria deles tocava violão e, por isso, passei a me interessar pelo instrumento. Mais que depressa, passei a “infernizar” meus pais para ganhar um violão e aprender a tocar, isso aos 10 anos. Seis anos depois meu pedido foi atendido, ganhei um Di Giorgio, lindo de morrer! Ele passou a ser o meu xodó, o amor da minha vida. Depois que casei, passou a ser o xodó do meu marido também e, agora, dez anos depois, quem é louco pelo instrumento é nosso filhote. Francisco não pode ver o violão que se joga para puxar as cordas e ouvir o som que elas emitem. É a musicalidade passando de geração em geração...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Ser mãe é...


Ser mãe era o sonho da minha vida, não poderia nunca passar pelo mundo sem ter vivido essa experiência. No entanto, resolvi escrever esse texto com um propósito diferente. Não vou listar aqui os sentimentos desse momento, existe uma bibliografia vasta sobre isto. Vou falar de atitudes oriundas de emoções, que fazem da Mãe uma “espécie” dentro da espécie humana. Um ser completamente distinto e intrigante. Enfim, vou falar da alegria de se colocar em segundo plano.
Quem já é mãe deve saber do que estou falando (e olha que eu estou apenas do começo desta longa jornada). Neste curto período que já vivi como mãe, tenho assunto para um livro inteiro, mas vou tentar resumir.
Ser mãe é ... achar ótimo não ter tempo nem de ir ao banheiro fazer xixi, e depois contar com orgulho para as visitas do bebê que acabou tendo uma cistite porque seu filho não larga o peito. É ter a melhor crise de coluna do mundo, afinal, ela é fruto do crescimento saudável do seu filhote. É não agüentar mais de dor nos braços, mas não conseguir, de jeito nenhum, deixar seu bebê no berço. É rezar, todos os dias, para não ter sono nunca mais, só para poder passar a noite inteira vigiando o sono do pequeno. É não confiar nem na própria sombra, quando o assunto é a segurança desse serzinho. É tirar um monte de fotos e depois notar que não está em quase nenhuma delas.
Mas não é só isso, ter neném significa ser a mulher mais realizada do mundo em ficar 24h por dia à disposição do seu filho. É se arrumar toda para ir ao supermercado depois de dois meses de confinamento (só de casa para o pediatra e do pediatra para casa). É ter muito, muito, muuuuuuuito sono, e chorar mais um tantão. É querer sua mãe do seu lado cada vez que o seu filho chora e você ainda não consegue identificar o que ele tem.
É achar que tudo faz mal, frio, calor, chupeta, mamadeira, Nan, Mucilon, sopinha da Nestlé, mão, beijo, bicho de pelúcia e tudo mais que não estiver esterilizado.
Mãe também não consegue pensar em nenhuma programação que não inclua seu filho e simplesmente se esquece do que gostava antes dele existir. Mãe que é mãe, também não hesita em trocar qualquer programa (até show de Lenine, pior, até show de Chico Buarque ou de Maria Bethânia), e ficar em casa desmamando e estocando leite para seu bebê ficar acobertado enquanto ela trabalha. Isso é só o que eu me lembrei enquanto escrevia, mas tem muito mais e é tudo verdade e incrivelmente maravilhoso...

domingo, 16 de novembro de 2008

Eita crise!!!


Sempre tive muito medo do futuro, desde criança. Algumas vezes, quando meus pais me permitiam, assistia ao Jornal Nacional e ficava extremamente estressada com as notícias. Tinha medo das guerras, pena das pessoas que passavam fome (no Brasil e fora dele), e ficava apavorada só de ouvi falar no número de pessoas que já havia contraído o vírus da AIDS.
Pois bem, eu cresci, mas continuo bastante preocupada com a quantidade de problemas que a humanidade enfrenta. Só que hoje, minha preocupação não é mais com o meu futuro apenas, agora eu temo pelo meu filho que acabou de nascer. Queria, como toda mãe, um mundo perfeito para ele viver.
Obviamente, que hoje recebo as notícias do mundo de uma maneira diferente, e, de um tempo para cá, essa maneira de ver o que acontece no mundo mudou ainda mais, afinal sou responsável, junto com meu marido, por uma casa e uma criança depende da gente.
A crise financeira mundial é um exemplo, bem recente, de notícia que me aflige, mesmo que pareça tão distante. É exatamente por entender pouco esse problema que me preocupo com ele. Acho, inclusive, uma injustiça que um assunto tão complexo, envolva pessoas completamente leigas sobre ele.
Concordei plenamente com o nosso presidente Lula quando, na recente reunião do G20, ele declarou que os Estados Unidos é que tinham que resolver esse problema. Quando o Brasil outrora esteve em crise quem veio nos socorrer, o FMI? Por que o FMI também não se mete na economia americana? Mais uma vez concordei com Lula quando ele disse que nós não temos culpa se “os EUA fazem de sua economia, um cassino”, porque é exatamente o que é, um jogo de sorte, uma aposta. O pior de tudo é que não existe um culpado, ou melhor, existem vários e são todos anônimos. Uns culpados apontam outros e, no fim, acabam despistando a nossa atenção.
Toda essa confusão começou, só para refrescar a memória, devido a negociações que partiram do mercado imobiliário americano. Este último passou por uma fase de expansão, em 2001, justo no momento em que o país também dispunha de juros baixos, facilitando os empréstimos e financiamentos. Dentro deste cenário, a demanda por imóveis cresceu muito, comprar uma casa passou a ser um ótimo negócio, tanto para quem queria ter a sua casa própria, como para quem queria apenas investir para lucrar no futuro.
Também cresceu a procura por novas hipotecas, a fim de usar o dinheiro do financiamento para quitar dívidas e consumir. Foi justamente neste ponto que a coisa complicou, porque as companhias hipotecárias começaram a negociar com um grupo de pessoas que poderiam não consegui pagar as prestações de uma hipoteca, o chamado “subprime” americano.
Justamente por ser uma transação de risco, emprestar para o “subprime” significa taxas de retorno bem mais altas. A promessa de retornos altos atraiu gestores de fundos e bancos, que compraram esses títulos "subprime" das companhias hipotecárias e permitiram que uma nova quantia em dinheiro fosse emprestada, antes mesmo do primeiro empréstimo ser pago. Um outro gestor, interessado no alto retorno envolvido com esse tipo de papel, comprou o título adquirido pelo primeiro, e assim por diante, gerou uma cadeia de venda de títulos.
No entanto, se a ponta dessa cadeia não consegue pagar suas dívidas é gerado um ciclo de não-recebimento o que cria um clima de desconfiança, resultando na retenção do crédito.
Para completar o problema, em 2006 os preços dos imóveis começaram a cair, os juros, por sua vez, já vinham subindo o que gerou uma onda de inadimplência. Com medo de novos calotes, o crédito nos EUA diminuiu o que fez a economia americana desaquecer. No mundo da globalização financeira, os problemas da economia americana (uma das mais importantes, se não for a mais importante) atingem todas as outras economias, diretamente ligadas a ela. Por isso o pessimismo influencia os mercados globais.
Na minha opinião, tudo isso está acontecendo por causa da ganância humana. Se não fossem esses especuladores que querem enriquecer sem produzir nada, só nesse negócio de comprar título e vender título, essa crise não estaria aí. Por outro lado, caberia ao governo americano coibir esses mesmo especuladores, criando uma política econômica sem brechas para que essas pessoas atuem, mesmo que isso signifique um crescimento mais lento.
Como falei anteriormente, é uma grande injustiça que essa economia da “sorte”, acabe prejudicando a nós brasileiros, cuja economia está começando a se destacar, além de outros países emergentes. Quando o problema é com um “grandão”, eles querem dividir as perdas, caso contrário, o problema é nosso!
Só sei que ando muito desconfiada. Ainda não tenho certeza de que maneira serei atingida por essa crise, só sei que serei, afinal, como diz o ditado “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

New York Times falso


Li hoje uma notícia, no mínimo curiosa, que me chamou a atenção pela grandiosidade e ousadia da ação. Trata-se da empreitada de um grupo ativista, o Yes Men , conhecido por promover "trotes progressistas" nos Estados Unidos. Pois bem, esse pessoal reproduziu um New York Times, isso mesmo, eles falsificaram o jornal, igualzinho, até a mesma tiragem. Mas o melhor é a manchete que fizeram para a publicação, que tem a data de 4 de julho de 2009, "Acaba a Guerra do Iraque". E tem mais, no jornal consta outras reportagens, como o Tesouro anunciando um plano sensato, ou o Ato Patriota sendo revogado e, ainda, George W. Bush sendo julgado por crime de guerra (o que seria bem merecido).
O Yes Men contou com um verdadeiro exército de voluntários que estão distribuindo a publicação vanguardista, desde ontem, em Nova York e em Los Angeles. No total, são 1,5 milhão de cópias do New York Times falso. E não pára por aí, o negócio é super organizado, tem até site munido de advogados para agilizar a libertação de distribuidores que forem pegos pela polícia. Coisa de primeiro mundo, claro!
É bom saber que há cidadãos americanos atuantes e informados sobre os desmandes de seus governantes mundo afora. Espero profundamente que este ato "sacuda" outros americanos, que se juntem a esse grupo mais consciente. Rogo aos americanos que esqueçam esse patriotismo egoísta, que tanto mal já causou, ao longo da História, e que lembrem que somos todos irmãos, pertencemos a uma mesma espécie, somos "farinha do mesmo saco". Não faz sentindo matar inocentes no Oriente Médio, nem explorar países pobres, em nome de dinheiro e poder. Podíamos ser uma só nação, a Nação do Mundo.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Poética

Sou chegada em poesia, para ler, não para fazer, não tenho esse talento, gostaria muito, mas não tenho. Na adolescência arrisquei alguns rascunhos, mas nunca tive coragem de mostrar para ninguém, não confiava muito no que tinha escrito, nem sabia se estava sendo fiel as minhas dores (foi uma fase difícil, geralmente é, para a maioria das pessoas, são os hormônios).
Acabei escondendo tudo o que escrevia, escondi tão bem que nem eu mesma sei onde estão agora. Inclusive, a minha mãe tentou, várias vezes, ler o que eu escrevia, claro que não era para comprovar meu talento literário, era mesmo para descobrir coisas sobre mim (nem sei bem o que, coisas de mãe). Mas confesso que, lendo minha poesia, dificilmente ela descobriria algo de importante, porque acho que não escrevia o que sentia, ou fingia sentir. Talvez por isso a poesia não saia boa, pelo menos eu não achava, nunca vou saber se era, nunca reli nada, tinha vergonha, pode?
Mudando de assunto, mas sem sair do tema geral, que é poesia, um dia me deparei com um poema de Fernando Pessoa. Lendo o texto, senti várias coisas: achei lindo no começo, depois achei uma heresia e, em seguida, tornei a achar bonito e, novamente, me vem um tapa na cara. Depois de ler e reler fiquei um pouco magoada com o poeta, senti-me insultada pelo modo como ele se referiu às minhas crenças, como se tivesse sido pessoal. Mas logo caí em mim, lembrei-me da liberdade de expressão, tão defendida pela minha categoria. Além do mais, poesia é algo profundamente pessoal e o fato de um dos melhores poetas do mundo não acreditar nas mesmas coisas que eu, não vai mudar minha vida.
Além disso, o poema nem é de Pessoa propriamente, é de Alberto Caeiro, um heterônimo do poeta. Quem sabe essa opinião não fosse nem dele, mas o que ele acreditava que Alberto achava. Como o próprio Pessoa disse, “criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não."
Por fim, resolvi fazer o que muitas redações de jornais fazem (erradamente, claro), distorci o poema a meu favor, fazendo uma pequena edição. Não pus nenhuma palavra, só cortei alguns versos e o Poema ficou assim...


Poema do Menino Jesus ... editado, porque assim eu acho mais bonito e me dói menos

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
...
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando agente as tem na mão
E olha devagar para elas.
...
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Alberto Caeiro

Vou escrever...

Ontem completei 26 anos de idade e, ontem mesmo, resolvi que passaria a escrever mais sobre coisas que gosto. Vai ser uma distração, um auto-conhecimento e, por que não, um veículo de comunicação. Vou falar de mim e escrever o que penso sobre tudo o que me interessa: a minha vida, jornalismo, assuntos que estão na “boca do povo”, sobre coisas que escrevi para o jornal onde trabalho, mas que não gostei, e sobre o que eu gostei também, claro.Vou contar experiências, minhas e dos outros, coisas que vi e vivi nesses 26 anos e também o que vem pela frente.
Talvez esse nem fosse o momento certo para criar um blog, que acaba roubando um tempo legal da gente, mas foi quando essa necessidade veio. Não é o começo, nem o meio, nem, muito menos, o fim da minha vida, mas é uma fase de muitas novidades: há dois anos sou esposa, há seis meses sou mãe e nada é mais como antes.
Passei de protegida a protetora, às vezes não me reconheço, sou, agora, uma verdadeira leoa, defendo minha família com unhas e dentes, mas passo a “manteiga derretida” em um piscar de olhos, quando vejo um sorriso do meu filho, ou quando recebo um carinho inesperado do meu marido. Minha vida está longe de ser a de uma princesa, como minha mãe dizia que seria, mas é a única que eu gostaria de ter.
Bom, é isso, vou escrever e ponto. Nessa primeira postagem vou deixar um trecho do livro de Clarice Lispector que deu nome ao meu blog. Esse pedacinho me remete às minhas próprias descobertas, a sentimentos inexplicáveis, maravilhosos...


Medo da eternidade

“Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas. Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou: - Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.”