terça-feira, 11 de novembro de 2008

Poética

Sou chegada em poesia, para ler, não para fazer, não tenho esse talento, gostaria muito, mas não tenho. Na adolescência arrisquei alguns rascunhos, mas nunca tive coragem de mostrar para ninguém, não confiava muito no que tinha escrito, nem sabia se estava sendo fiel as minhas dores (foi uma fase difícil, geralmente é, para a maioria das pessoas, são os hormônios).
Acabei escondendo tudo o que escrevia, escondi tão bem que nem eu mesma sei onde estão agora. Inclusive, a minha mãe tentou, várias vezes, ler o que eu escrevia, claro que não era para comprovar meu talento literário, era mesmo para descobrir coisas sobre mim (nem sei bem o que, coisas de mãe). Mas confesso que, lendo minha poesia, dificilmente ela descobriria algo de importante, porque acho que não escrevia o que sentia, ou fingia sentir. Talvez por isso a poesia não saia boa, pelo menos eu não achava, nunca vou saber se era, nunca reli nada, tinha vergonha, pode?
Mudando de assunto, mas sem sair do tema geral, que é poesia, um dia me deparei com um poema de Fernando Pessoa. Lendo o texto, senti várias coisas: achei lindo no começo, depois achei uma heresia e, em seguida, tornei a achar bonito e, novamente, me vem um tapa na cara. Depois de ler e reler fiquei um pouco magoada com o poeta, senti-me insultada pelo modo como ele se referiu às minhas crenças, como se tivesse sido pessoal. Mas logo caí em mim, lembrei-me da liberdade de expressão, tão defendida pela minha categoria. Além do mais, poesia é algo profundamente pessoal e o fato de um dos melhores poetas do mundo não acreditar nas mesmas coisas que eu, não vai mudar minha vida.
Além disso, o poema nem é de Pessoa propriamente, é de Alberto Caeiro, um heterônimo do poeta. Quem sabe essa opinião não fosse nem dele, mas o que ele acreditava que Alberto achava. Como o próprio Pessoa disse, “criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não."
Por fim, resolvi fazer o que muitas redações de jornais fazem (erradamente, claro), distorci o poema a meu favor, fazendo uma pequena edição. Não pus nenhuma palavra, só cortei alguns versos e o Poema ficou assim...


Poema do Menino Jesus ... editado, porque assim eu acho mais bonito e me dói menos

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
...
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando agente as tem na mão
E olha devagar para elas.
...
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Alberto Caeiro

Um comentário:

Anônimo disse...

Amanda minha menina linda,li sim a maioria das suas poesias ,guardo uma como recordação da sua adolescencia e afirmo com convicção,talento vc tem sobrando.