Acabei escondendo tudo o que escrevia, escondi tão bem que nem eu mesma sei onde estão agora. Inclusive, a minha mãe tentou, várias vezes, ler o que eu escrevia, claro que não era para comprovar meu talento literário, era mesmo para descobrir coisas sobre mim (nem sei bem o que, coisas de mãe). Mas confesso que, lendo minha poesia, dificilmente ela descobriria algo de importante, porque acho que não escrevia o que sentia, ou fingia sentir. Talvez por isso a poesia não saia boa, pelo menos eu não achava, nunca vou saber se era, nunca reli nada, tinha vergonha, pode?
Mudando de assunto, mas sem sair do tema geral, que é poesia, um dia me deparei com um poema de Fernando Pessoa. Lendo o texto, senti várias coisas: achei lindo no começo, depois achei uma heresia e, em seguida, tornei a achar bonito e, novamente, me vem um tapa na cara. Depois de ler e reler fiquei um pouco magoada com o poeta, senti-me insultada pelo modo como ele se referiu às minhas crenças, como se tivesse sido pessoal. Mas logo caí em mim, lembrei-me da liberdade de expressão, tão defendida pela minha categoria. Além do mais, poesia é algo profundamente pessoal e o fato de um dos melhores poetas do mundo não acreditar nas mesmas coisas que eu, não vai mudar minha vida.
Além disso, o poema nem é de Pessoa propriamente, é de Alberto Caeiro, um heterônimo do poeta. Quem sabe essa opinião não fosse nem dele, mas o que ele acreditava que Alberto achava. Como o próprio Pessoa disse, “criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não."
Por fim, resolvi fazer o que muitas redações de jornais fazem (erradamente, claro), distorci o poema a meu favor, fazendo uma pequena edição. Não pus nenhuma palavra, só cortei alguns versos e o Poema ficou assim...
Poema do Menino Jesus ... editado, porque assim eu acho mais bonito e me dói menos
Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
...
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando agente as tem na mão
E olha devagar para elas.
...
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Alberto Caeiro
Um comentário:
Amanda minha menina linda,li sim a maioria das suas poesias ,guardo uma como recordação da sua adolescencia e afirmo com convicção,talento vc tem sobrando.
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